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23 de outubro de 2013

Sobre a dignidade animal


Sinceramente sinto mais dignidade para com os animais de uma tourada ou de um rodeio do que com aqueles de um laboratório de testes. Por mais cruel que pareçam, as manifestações lúdicas entre homem e animal tem um caráter de balanceamento ontológico entre as espécies, uma iniciativa do espírito humano para compensar o uso vulgar da vida dos animais na alimentação, vestuário, etc. Uma tentativa de revestir a crueldade cotidiana de consumo e da exploração de algum sentido transcendente. A simplicidade - e por que não a sensibilidade e ingenuidade do homem do campo? - desenvolveu maneiras de re-integrar o animal no enredo cósmico, ressaltando sua relação de mútua cooperação mas também de conflito. Ao cavalo que labuta na lavoura oferece-se a oportunidade de voltar a ser selvagem na arena ou solto em uma corrida; ao touro de participar de um certame de vida e morte depois de ser celebrado com flores, rezas e cortejos; ao burro que leva chicotadas dá-se o papel de carregar o Salvador em autos de Natal e Paixão; em alguns países montam-se em porcos vestidos como seres humanos, etc. O contrário dessa 'crueldade' é a matança DESPERSONALIZADA e INDUSTRIAL dos animais, o que inclui os testes - embora necessários - de laboratório. Muito me pergunto se a brutalização do homem moderno não tem muito a ver com essa inevitável massificação do extermínio animal sem a recorrência de uma reconciliação ontológica, de uma consagração dessa relação entre homens e animais.

OBS: Nós brasileiros devíamos nos orgulhar muito de nossas manifestações folclóricas. O brasileiro criou o boi bumbá, por exemplo. Substituiu o sangue jorrando do touro ibérico pela teatralização, pelo fantoche. O efeito de balanceamento ontológico é o mesmo.

15 de junho de 2013

Roleta Russa



Fiz no meu perfil do Facebook uma pequena reflexão sobre os protestos de 'estudantes' em SP. Reproduzo aqui e acrescento um videoclipe que gostaria muito que vocês assistissem (acho bastante sinistro esse vídeo - não sei se é um aviso ou se estão esfregando algo na nossa cara):

"O motor psicológico de todo revolucionário é a necessidade por transgressão típica da adolescência. Não é por nada que a mídia chama o manifestante de 'jovem' - sabe que está lidando com elementos inseguros, sedentos de ação e de acontecimentos que transcendam sua mediocridade cotidiana, com déficit de imaginação e de sentido existencial; daí importante lisonjeá-los.Toda revolução usa o jovem como bucha de canhão e logo depois os elimina aos milhões em gulags, campos de trabalho forçados, massacres, programas de lavagem cerebral em massa, etc; afinal, hormônios são incontroláveis. O homem que sonha é uma granada que explode por toda a eternidade. Embora cada vez mais perigosa, no âmbito particular, a transgressão quase sempre é benéfica e parte do processo de amadurecimento da personalidade (é o tema preferido dos filmes de Milos Forman, confiram); já no âmbito da sociedade a transgressão é uma roleta russa. Nem todas as forças da sociedade são irracionais e instintivas como esses grupos de adolescentes. As elites intelectuais excitam-se com revoluções como os jogadores com o embaralhar das cartas. Os jovens não sabem o que querem; no entanto comunistas, nazistas, fascistas, maçons, cartéis, seitas religiosas, grupos tradicionais organizados, famílias mafiosas e qualquer grupo que não faça da masturbação e do uso diário de drogas emburrecedoras sua principal ocupação lúdica sabe. O Coringa vai parar inevitavelmente na mão de quem olha o jogo como um todo; aos jovens, como sempre, restará a pilha de descarte."



1 de junho de 2013

Síndrome de Raul Gil



Um dos grandes males da minha geração é algo que chamo, assim de brincadeira, de "Síndrome de Raul Gil". Essa geração cresceu com uma expectativa exageradíssima sobre sua capacidade e sobre o seu destino. Foi marcada com um senso desproporcional de protagonismo e dotada de um senso de realização pessoal irracional muitas vezes delirante. Ninguém consegue convencer as pessoas dessa geração, quando é o caso, de que não sabem cantar, nem atuar, nem dançar, que são feios, suas vozes são horríveis, não tem nenhum carisma nem talento e que, muitas vezes, são ignorantes e/ou burros demais para o que pretendem fazer. Nada consegue tirá-las da sua ilusão de 'gracinha da mamãe' - tudo as machuca, desrespeita, ofende suas heroicas escaladas rumo ao Olimpo. Consideram-se prontos e acabados desde o nascimento, celebridades ainda não descobertas apenas pela inveja que imaginam receber de todos ao seu redor. Cada uma dessas pessoas uma revelação 'urbi et orbi' para o mundo. Às vezes até tem algum talento, mas não conseguem desenvolvê-lo por causa da incapacidade total de avaliar seus potenciais com honestidade.A frustração da não-realização dos seus sonhos de infância causa então um sofrimento enorme nestas pessoas. Elas, muitas vezes, acabam caindo na promiscuidade e nas drogas para fugir de uma realidade que avoluma-se cada vez diante dos seus olhos: a de que provavelmente são medíocres. E mutilam-se: tomam esteroides, tentam afirmar a personalidade tatuando o corpo inteiro com símbolos que desconhecem, implantam silicone, fazem plásticas agressivas, ficam anoréxicas, são vitimizadas pela moda e pelo consumismo voraz.Talvez até nem sejam mesmo medíocres; mas como convencê-las de que elas precisam se aperfeiçoar? Jamais conseguem se desenvolver em nada por pura incapacidade de exercer alguma humildade sobre si mesmos. São imunes a qualquer 'anamnese' possível. Em busca de ser estrelas comportam-se como buracos negros. Talvez por isso a minha geração seja tão ressentida e magoada. As ideologias enxergam, com muita esperteza, esse mar cheio de peixes e atiram a rede que volta farta. Eu sei que 'tudo-pode-ser-só-basta-acreditar-tudo-que-quiser-você-será', mas talento é algo raro. E fama é algo inexplicável; está aí o You Tube para comprovar. A celebridade não é um direito, mas sim uma graça efêmera que vai e volta como o vento. Ainda existe uma coisa chamada 'sorte'. É claro que muitos conseguem se libertar dessa síndrome e encontrar alguma consolação na vida. E muitas vezes ela é encontrada em uma inesperada habilidade de cultivar jardins, no prazer da contemplação de um mistério religioso ou no amor de uma mulher e filhos. Muitos infelizmente não conseguem e perecem pelo caminho na tristeza infinita de uma sarjeta, no fundo de uma espiritual garrafa de desalentos eternos. A nossa geração precisa retornar urgentemente ao empreendimento mais essencial da jornada humana sobre a Terra, empreendimento mesmo do qual os poetas, profetas e filósofos perseguiram com tanta obsessão e esperança: a busca do 'Eu' e a conquista definitiva de uma verdadeira personalidade.

*cena do filme "Inland Empire", de David Lynch